sábado, 16 de outubro de 2010

"Da Criação"


Sublime feiura de beleza singular:
Subliminar pluralidade da solidão.
O quase surdo-mudo mundo do universo do silêncio.

Desperdício da polpa fresca do velho vício de criar;
Nada se cria, nada se perde, e o nada se transforma
em um quase nada disforme, com um pouco de tudo
que tangencia de leve a ignorância do estudo.

Super modesta luxúria dos poetas (loucos conscientes)
no absurdo mundo imundo do inverso do imenso.

É barulhento o zunido azedo do calar da noite,
Que proporciona a propulsão exata da formação do caos,
Causado despretensiosamente pela mente
Que ama, apaixonada ou vertiginosamente,
Com a genialidade do ingênuo
Algo que mal sabe descrever.

sábado, 28 de agosto de 2010

Pálido Ponto Azul



"Olhem de novo para esse ponto. Isso é aqui, isso é a nossa casa, isso somos nós. Nele, todos a quem amam, todos a quem conhecem, qualquer um do quem escutaram falar, cada ser humano que existiu, viveram as suas vidas. O agregado da nossa alegria e nosso sofrimento, milhares de religiões autênticas, ideologias e doutrinas econômicas, cada caçador e colheitador, cada herói e covarde, cada criador e destrutor de civilização, cada rei e camponês, cada casal de namorados, cada mãe e pai, criança cheia de esperança, inventor e explorador, cada mestre de ética, cada político corrupto, cada superestrela, cada líder supremo, cada santo e pecador na história da nossa espécie viveu aí, num grão de pó suspenso num raio de sol.

A Terra é um cenário muito pequeno numa vasta arena cósmica. Pensem nos rios de sangue derramados por todos aqueles generais e imperadores, para que, na sua glória e triunfo, vieram eles ser amos momentâneos duma fração desse ponto. Pensai nas crueldades sem fim infligidas pelos moradores dum canto deste pixel aos quase indistinguíveis moradores de algum outro canto, quão frequentes as suas incompreensões, quão ávidos de se matar uns aos outros, quão veementes os seus ódios.

As nossas exageradas atitudes, a nossa suposta auto-importância, a ilusão de termos qualquer posição de privilégio no Universo, são reptadas por este pontinho de luz frouxa. O nosso planeta é um grão solitário na grande e envolvente escuridão cósmica. Na nossa obscuridade, em toda esta vastidão, não há indícios de que vá chegar ajuda de alguem para nos salvar de nós próprios.

A Terra é o único mundo conhecido, até hoje, que abriga a vida. Não há mais algum, pelo menos no próximo futuro, onde a nossa espécie possa emigrar. Visitar, pode. Assentar-se, ainda não. Gostando ou não, por enquanto, a Terra é onde temos de ficar.
Tem-se falado da astronomia como uma experiência criadora de firmeza e humildade. Não há, talvez, melhor demonstração das tolas e vãs soberbas humanas do que esta distante imagem do nosso miúdo mundo. Para mim, acentua a nossa responsabilidade para nos portar mais amavelmente uns para com os outros, e para protegermos e acarinharmos o ponto azul pálido, o único lar que tenhamos conhecido."

Carl Sagan, numa conferência em 11 de Maio de 1996. A Voyager 1, sonda espacial a cerca de 6,4 bilhões de kilômetros da Terra, recebeu o comando de se virar para trás e captar esta imagem do nosso planeta.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

“Sobre a Educação”

Cinco e meia da tarde, passado já. Calculo ser esta a hora do ocorrido testemunhado por mim aqui pois, alguns minutos antes, crianças e adolescentes passavam com suas mochilas felizes, caminhando aleatoriamente.
Do mesmo lugar de onde vinham estes jovens vinha aquele senhor de meia idade, de nome João e alguma coisa, e de uma expressão facial divida em dois: uma metade indecifrável composta de uma distorção visual enorme mostrada pelo óculos, e uma outra feita de um semi sorriso, escondendo aquela satisfação pessoal de quem sabe que está fazendo a coisa certa e, quem sabe, alguma preocupação. Na sua bicicleta, na sua simplicidade, nem parecia ser um profesor de Filosofia, um transformador da humanidade. De certo que assinou seu livro ponto e ia para casa sob uma chuva costumeira, para degustar seu pão seco, que acabara de comprar. Ia sob seu guarda chuva, que parecia não ser muito eficiente.
Um Opala (cujo parabrisa refletia o céu fosco) vinha do posto de gasolina em direção à avenida. João olhou para o carro, afim de ver se dava tempo de passar antes, e não havia ninguém na direção. Voltou o rosto para frente, deu mais meia pedalada em seu veículo de transporte e olhou novamente... "Ninguém na direção?!" - deve ter pensado. Largou bicicleta, pães e guarda chuva e correu atrás do carro. Abriu a porta pelo lado de dentro (a janela estava aberta), e pisou no pedal do freio, girando o volante em tempo de evitar uma catástrofe. "Quase vi um acidente!", pensei.
Logo apareceu seu dono irresponsável, um senhor com ausência de expressões faciais e cabelo. Professor João saiu do automóvel e o outro assumiu a direção.
- Olha, provavelmente estava em ponto morto... - disse o professor.
O dono do carro não lhe agradeceu, nem o olhou na cara. Não falou palavra alguma, e saiu. Professor João ficou ali uns instantes, olhando firmemente para o vazio...
Então os pães, guarda chuva e bicicleta o juntaram do chão, e o levaram para casa.

"Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris."

Memento: (latim) 1. Lembrar, lembrança; 2. Pequeno caderno de memórias pessoais, diário de anotações.

A memória é uma ilha de edição. A imaginação é a memória, enlouquecida.

About Me

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Garuva, Santa Catarina, Brazil
"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quieta na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia..."(Galeano) Sou mais um "bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".