Cinco e meia da tarde, passado já. Calculo ser esta a hora do ocorrido testemunhado por mim aqui pois, alguns minutos antes, crianças e adolescentes passavam com suas mochilas felizes, caminhando aleatoriamente.
Do mesmo lugar de onde vinham estes jovens vinha aquele senhor de meia idade, de nome João e alguma coisa, e de uma expressão facial divida em dois: uma metade indecifrável composta de uma distorção visual enorme mostrada pelo óculos, e uma outra feita de um semi sorriso, escondendo aquela satisfação pessoal de quem sabe que está fazendo a coisa certa e, quem sabe, alguma preocupação. Na sua bicicleta, na sua simplicidade, nem parecia ser um profesor de Filosofia, um transformador da humanidade. De certo que assinou seu livro ponto e ia para casa sob uma chuva costumeira, para degustar seu pão seco, que acabara de comprar. Ia sob seu guarda chuva, que parecia não ser muito eficiente.
Um Opala (cujo parabrisa refletia o céu fosco) vinha do posto de gasolina em direção à avenida. João olhou para o carro, afim de ver se dava tempo de passar antes, e não havia ninguém na direção. Voltou o rosto para frente, deu mais meia pedalada em seu veículo de transporte e olhou novamente... "Ninguém na direção?!" - deve ter pensado. Largou bicicleta, pães e guarda chuva e correu atrás do carro. Abriu a porta pelo lado de dentro (a janela estava aberta), e pisou no pedal do freio, girando o volante em tempo de evitar uma catástrofe. "Quase vi um acidente!", pensei.
Logo apareceu seu dono irresponsável, um senhor com ausência de expressões faciais e cabelo. Professor João saiu do automóvel e o outro assumiu a direção.
- Olha, provavelmente estava em ponto morto... - disse o professor.
O dono do carro não lhe agradeceu, nem o olhou na cara. Não falou palavra alguma, e saiu. Professor João ficou ali uns instantes, olhando firmemente para o vazio...
Então os pães, guarda chuva e bicicleta o juntaram do chão, e o levaram para casa.
terça-feira, 2 de fevereiro de 2010
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"Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris."
Memento: (latim) 1. Lembrar, lembrança; 2. Pequeno caderno de memórias pessoais, diário de anotações.
A memória é uma ilha de edição. A imaginação é a memória, enlouquecida.
A memória é uma ilha de edição. A imaginação é a memória, enlouquecida.
About Me
- Evandro L. A. Rocha
- Garuva, Santa Catarina, Brazil
- "Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quieta na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia..."(Galeano) Sou mais um "bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".
2 comentários:
Estes pequenos grandes momentos que fogem da rotina e ficam guardados na nossa memória !
A história fica mais bonita se contada em terceira pessoa. De fato, quem parou o carro foi eu. Mas o que vale é tão somente a última frase; toda a essência deste conto está contida ali.
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