terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

“Sobre a Educação”

Cinco e meia da tarde, passado já. Calculo ser esta a hora do ocorrido testemunhado por mim aqui pois, alguns minutos antes, crianças e adolescentes passavam com suas mochilas felizes, caminhando aleatoriamente.
Do mesmo lugar de onde vinham estes jovens vinha aquele senhor de meia idade, de nome João e alguma coisa, e de uma expressão facial divida em dois: uma metade indecifrável composta de uma distorção visual enorme mostrada pelo óculos, e uma outra feita de um semi sorriso, escondendo aquela satisfação pessoal de quem sabe que está fazendo a coisa certa e, quem sabe, alguma preocupação. Na sua bicicleta, na sua simplicidade, nem parecia ser um profesor de Filosofia, um transformador da humanidade. De certo que assinou seu livro ponto e ia para casa sob uma chuva costumeira, para degustar seu pão seco, que acabara de comprar. Ia sob seu guarda chuva, que parecia não ser muito eficiente.
Um Opala (cujo parabrisa refletia o céu fosco) vinha do posto de gasolina em direção à avenida. João olhou para o carro, afim de ver se dava tempo de passar antes, e não havia ninguém na direção. Voltou o rosto para frente, deu mais meia pedalada em seu veículo de transporte e olhou novamente... "Ninguém na direção?!" - deve ter pensado. Largou bicicleta, pães e guarda chuva e correu atrás do carro. Abriu a porta pelo lado de dentro (a janela estava aberta), e pisou no pedal do freio, girando o volante em tempo de evitar uma catástrofe. "Quase vi um acidente!", pensei.
Logo apareceu seu dono irresponsável, um senhor com ausência de expressões faciais e cabelo. Professor João saiu do automóvel e o outro assumiu a direção.
- Olha, provavelmente estava em ponto morto... - disse o professor.
O dono do carro não lhe agradeceu, nem o olhou na cara. Não falou palavra alguma, e saiu. Professor João ficou ali uns instantes, olhando firmemente para o vazio...
Então os pães, guarda chuva e bicicleta o juntaram do chão, e o levaram para casa.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Adore

Rosto, que se transforma em estampa
Vira dinheiro no bolso
Uma idéia se perde e acontece
Exatamente o oposto...

Gosto... não se discute mas depende
Do que vira moda de repente
E quem tá fora da roda é demente,
Só importa o presente...

Gosto, hoje em dia é uma questão de gasto,
Então comemos do mesmo pasto,
E é tão gratuita ignorância
E futilidade...

Rosto... com prazo de validade,
Descartável gosto imposto
Ossos do ofício da vaidade
idade... idade... idade...

Encontre alguém para idolatrar,
E se dopar, e se alienar...
Encontre alguém para adorar...

Sala/Cela

Estou aqui, nesta sala/cela, superlotada
O silêncio é essencial
Pra não ser... punido mais ainda
Aguenta aí irmão... Espere pelo sinal
...Espere pelo sinal...
...Espere pelo sinal...

Na mão óleo, graxa, caco de vidro, terra
Na mente paz, na alma guerra
Molho as mãos, lavo as mãos, que mal sabem escrever
Mas que qualquer um pode ler
...Qualquer um, pode ver...
...E qualquer um posso ser...

Um muro, um pulo, correria e vida intensa
Um labirinto um tanto surreal
Estou trancado em minha própria consciência
Num mundo em que ser louco é ser normal
...Ser louco é tão normal...
...Ser louco é o sinal...

A prisão é uma escola...
E a escola é uma prisão...
O salário é uma esmola...
Jogar bola é a solução...
...

(letra e melodia por E.L.A.R)

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Poemas em pó (antiga leva de leviandade)

"Contagem"

No primeiro
segundo
de uma Terça-feira,
no quarto meu,
quinto dos infernos alheios,
um sexto sentido me diz
que aquele sétimo cigarro
já se foi, tava ali
sozinho, se queimando, sem nove-horas
se queixando de dez míseros minutos
da mais pura e violenta
falta de criatividade.
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Paquinha Judas (ou Suicídio Subentendido)

Na ala dos comprimidos
Alados amigos secretos
Aliviam a incompreensão.
Na calada noite,
A sala - açougue -,
De estar - em pedaços -, de obsessão
De quebra-cabeça , não existe mais.
Prazer excrusciante de uma desejada solidão,
Com a dor sutil da subsequente paz.
Comprimido feito contra a paca
Que lentamente caminha, Judas
Aqui no chão entra, e no inferno sai...
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segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Fogos de Artifício

Casas que sobem os morros,
Casas que fogem da inundação
E isto tudo é tão natural...

Pessoas que não têm casas,
Casas sem pessoas,
Casas e pessoas abandonadas
Isto é tão natural...

Tem gente que planta, colhe
E que passa fome
Tem gente que tem, mas não come
E tudo tão natural...

Tem gente que rouba e tem cara de pau
De pedir o seu voto no horário eleitoral
E isso é muito, muito, muito natural...

Diante disso eu me sinto tão artificial!

Tem bicho que come melhor do que a gente
Tem bixo inteligente que é indigente
Completamente natural

E cobras que cobram o cobre de quem é pobre
Pequenos venenos que ninguém descobre
Óbitos por causa natural...

Diante disso eu me sinto tão artificial!


Fogos de artifício pra comemorar o vício,
Fogos de artifício pra comemorar o sacrifício,
Fogos de artifício pra comemorar o vício,
Fogos de artifício pra comemorar o sacrifício...

"Memento homo, quia pulvis es et in pulverem reverteris."

Memento: (latim) 1. Lembrar, lembrança; 2. Pequeno caderno de memórias pessoais, diário de anotações.

A memória é uma ilha de edição. A imaginação é a memória, enlouquecida.

About Me

Minha foto
Garuva, Santa Catarina, Brazil
"Somos, enfim, o que fazemos para transformar o que somos. A identidade não é uma peça de museu, quieta na vitrine, mas a sempre assombrosa síntese das contradições nossas de cada dia..."(Galeano) Sou mais um "bicho humano, fodido mas sagrado, e à louca aventura de viver no mundo".